O professor José Manuel Viegas declarou recentemente ao Diário Digital que “um aperto suave tira pessoas do automóvel para o transporte colectivo. Um aperto duro tira pessoas do transporte e ponto final”. Este fenómeno explica-se, adiantou, pela conjugação de dois movimentos. Um primeiro movimento, provocado pelo aumento das dificuldades económicas, leva utilizadores do transporte individual a optar pelo transporte público. Um segundo movimento, provocado pelo aumento do desemprego e, também, pelo agravar dessas dificuldades económicas, diminui a procura de mobilidade, o que afecta sobretudo o transporte público e pode mesmo conduzir a uma perda líquida de passageiros.
Este é o ponto em que nos encontramos hoje, e esta é a realidade que o sector do Transporte Público de Passageiros enfrenta. Considerando que a situação já não era das melhores, o desafio é sem dúvida de grande dimensão e elevado grau de dificuldade. Tanto mais quando a resposta que formos capazes de encontrar para este desafio vai, não tenhamos dúvida, marcar a evolução do sector e a sua sustentabilidade muito para além do período de crise que atravessamos, e que tudo indica ainda está para durar. É o futuro de médio e longo prazo do sector, e das empresas que o constituem e que com ele têm uma interacção significativa, que está em jogo. E neste contexto o primeiro dever do sector será o de assumir, de forma clara, a responsabilidade directa pela construção desse futuro. Terão que ser as empresas constituintes do sector, e as que com ele têm uma interacção significativa, a definir estratégias comerciais viáveis e de sucesso, abandonando de vez a excessiva dependência do Estado em que todos ou quase todos temos vivido.
Para tal é necessário abandonar os utentes que são servidos de qualquer forma e substitui-los por clientes. Os clientes conquistam-se, seduzem-se, cativam-se, servem-se e fidelizam-se. Os operadores terão de ser capazes de oferecer, como empresas, serviços que esses clientes valorizem mais do que o custo a eles associado; de perceber o que desejam e transformar esses desejos em necessidades que possam ser melhores do que as alternativas. Terão que entender o mapa mental desses clientes, identificar quais são as alternativas que nesse mapa existem para aqueles desejos e necessidades, e melhorar a posição comparativa dos seus serviços face a essas alternativas, seja apresentando uma melhor relação custo / benefício seja modificando a forma de valorização e comparação dos seus serviços e dessas alternativas.
Isto significa ser rigoroso no controlo dos custos, eliminando desperdícios e racionalizando despesas, e criativo na melhoria de qualidade e no desenvolvimento de novas ofertas. E isso, por muito contrário que seja à nossa intuição imediata, significa investir e investir fortemente. Investir para baixar os custos e melhorar, quantitativa e qualitativamente, a oferta. Investir para renovar as frotas e melhorar a gestão dos factores produtivos. Investir para aumentar o conforto e reduzir o stress e a incerteza dos serviços oferecidos. Investir para melhorar a informação disponibilizada e aumentar a segurança oferecida. Investir, em suma, para modificar radicalmente a imagem que hoje existe de um transporte público destinado apenas aos que não têm alternativa, uma espécie de gueto da mobilidade reservado aos adolescentes, aos idosos e aos economicamente mais desfavorecidos.
Parece demasiado? Parece impossível? Parece. E parece porque é algo extremamente difícil que terá de ser realizado num período particularmente duro. Se até coisas habitualmente fáceis se tornaram difíceis, que poderemos esperar para as que já são difíceis à partida?
Será necessário um carácter feito de persistência, rigor, imaginação e criatividade. Será necessário descobrir recursos onde aparentemente não os há, persistindo infatigavelmente nessa busca, usando o rigor para os obter onde eles existem mas estão subaproveitados, procurando com imaginação entender o que os clientes valorizam, e utilizando a criatividade para investir o necessário para oferecer isso mesmo.
Será sobretudo necessário muito trabalho e muito esforço. Mas só assim o sector conseguirá manter como clientes os milhares de pessoas que, por causa das dificuldades económicas, abandonaram e continuam a abandonar o transporte privado, e que, a manter-se a situação actual, a ele voltarão ao primeiro sinal de melhoria económica.
Só assim poderá o transporte público abrir caminho para recuperar os milhares de pessoas que, infelizmente, o abandonaram por não terem meios económicos para o suportarem.
Só assim, o sector criará condições para rejeitar o clientelismo de suplicantes que tem caracterizado a sua relação com o aparelho do Estado, substituindo-a por uma relação mais igual, em que os operadores de Transporte Público sejam empresas que como tal se comportem. Só assim existirão condições efectivas para que essas empresas exijam ao Estado que assuma as suas responsabilidades sociais, nomeadamente no que respeita ao direito à mobilidade que a todos assiste, e recusem ser o vazadouro dessas responsabilidades.
É minha convicção, como acima disse, que o futuro do Transporte Público está em jogo, na crise e muito para além dela. A crise é grande, mas não é eterna, e o que o sector agora fizer determinará o futuro muito para além da recuperação que, mais cedo ou mais tarde, chegará.O desafio é grande, é enorme e teremos de ir ao mais fundo de todos nós para crescer e ganhar a força necessária para lhe fazer face. Para que, parafraseando o poema de Natália Correia, sejamos capazes de encontrar o animal que espeta os cornos no destino. Porque se não o fizermos, a nossa dimensão, não será a vida, nem será a morte.
Manuel Paias, CEO.
Artigo publicado in "Transportes em Revista", nr. 102, Agosto 2011
